14 julho 2008

Annus Horribilis



Este ano a marcha do orgulho LGBT do Porto focou um tema que me toca particularmente, o fenómeno do bullying. Uma triste realidade em que jovens (e não só) são descriminados, atacados e ofendidos por serem diferentes. Na altura em que eu estudava o termo não existia mas passei por isso pessoalmente. Lembro-me perfeitamente do dia em que um amigo meu, ao atravessarmos a rua para entrarmos no Liceu, me disse 'sabes que andam a dizer que és maricas?'. Isto apanhou-me completamente de surpresa. Nunca antes tinha tido qualquer problema. Sempre fui um adolescente tímido e discreto. O facto de saber que era homossexual era o meu maior segredo e numa questão de segundos o mundo à minha volta sabia dele. Mas pensei que fosse algo pontual e que o assunto se encerrasse rapidamente. Como estava enganado. O que se seguiu foram meses intermináveis de humilhação. Os ataques eram praticamente todos verbais, com algumas ameaças físicas à mistura que nunca se chegaram - felizmente - a concretizar. Lembro-me de contar os meses, semanas e dias para cada fim-de-semana, feriado ou período de férias: no fundo todas as alturas em que não era obrigado a suportar aquela realidade. Nunca me pude abrir com ninguém. Era impensável para mim fazê-lo na altura. Mas acabei por sobreviver. E no ano seguinte, entrei numa turma nova e nunca mais passei por algo do género. Anos mais tarde cruzei-me socialmente com um dos bullies. Sabendo os problemas que me tinha causado, o desconforto de ter de me cumprimentar era visível no seu rosto. É que eu já não era um menino frágil e assustado. Mas ele naquele momento parecia um.

Na verdade, eu tive sorte. Mas em muitos casos o resultado é bem mais dramático. A adolescência é um período especialmente frágil em que este tipo de comportamento pode ter resultados realmente trágicos. É um assunto para o qual a sociedade portuguesa está lentamente a despertar e um dos primeiros sinais foi a inauguração de uma linha de apoio telefónico (808 968 888) para este tipo de casos. É apenas o começo, mas já é alguma coisa.

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