02 janeiro 2007

Novo ano, novos voos



Este fim-de-ano foi para mim muito mais do que uma simples efeméride. Até ao início da idade adulta viajei de avião sem qualquer tipo de problema, embora sempre com algum receio associado. Na última década esse receio transformou-se em fobia e deixei usar o avião como meio de transporte. Como acontece com todos os fóbicos tentei adaptar a minha vida à volta da fobia privando-me de conhecer novos lugares e agarrar oportunidades pelo simples facto de não conceber entrar novamente num avião.

Há cerca de um mês fomos desafiados pela t. a ir até Madrid pelo Ano Novo. E de avião, claro. Aproveitando os excelentes preços da Ryanair que agora voa diariamente entre o Porto e a capital espanhola. De início o meu primeiro instinto foi dizer que não. Mas a pressão de obter os bilhetes rapidamente antes que se esgotassem foi uma boa estratégia para me impulsionar a comprá-los.

Os meus sintomas relativos a viajar de avião são clássicos. Basta pensar nisso para o meu coração acelarar, a respiração tornar-se ofegante e sentir o peito comprimir-se. Em pleno voo os problemas tendem a multiplicar-se. Numa das minhas últimas viagens, há uns anos atrás, consegui viajar cerca de 15 horas até Hong-Kong sem pregar olho, em estado de ansiedade profundo e as palmas da mão em constante transpiração. O resto dessas férias foram passadas a pensar no terror do regresso.

Decidido a ultrapassar o meu medo usei dois métodos: a ajuda de um psicólogo para conseguir gerir os meus instintos mais básicos e a leitura de informação sobre a forma como os aviões funcionam. Isto porque grande parte das fobias deve-se pura e simplesmente ao desconhecimento sobre aquilo que nos provoca um medo irracional.

Em relação ao meu psicólogo só posso dizer que foi fantástico em todo o processo apoiando-me desde o primeiro minuto e continuando a fazê-lo até ao próprio dia do voo.

Quanto ao conhecimento adicional sobre o funcionamento dos aviões descobri um site excelente, FearofFlyingHelp.com, onde um piloto de aviação norte-americano ajuda fóbicos como eu a ultrapassar os seus medos explicando em pormenor o processo de voo simulando toda uma viagem com a utilização de dezenas de videos e faixas de áudio.

Munido destas duas "armas" finalmente chegou o dia. Uma das condições que me tinha imposto era não tomar nenhum tranquilizante. Queria enfrentar a fobia de frente. E foi o que fiz.

Quando entrei no avião comecei mentalmente a pensar em todos os passos que tinha treinado com o psicólogo e a relacionar todos os sons que ouvia com os processos que estavam a ocorrer, tal como tinha aprendido no site. Quando levantamos voo fechei os olhos, agarrei-me à cadeira e respirei fundo. Finalmente quando o avião estabilizou aconteceu uma coisa extraordinária, o meu coração desacelerou, as palmas das minhas mãos ficaram secas e não sentia o menor peso no peito. Foi uma viagem tranquila, quase sem turbulência. E para compensar ainda chegamos 15 minutos antes do horário previsto.

Durante os dias seguintes houve sempre a "nuvenzinha" do regresso a pairar, mas a minha ansiedade em relação ao assunto era muitíssimo menor e perfeitamente gerível.

Quando hoje finalmente regressamos o meu corpo e mente reagiram de uma forma muito mais calma e controlada à situação e pude apreciar algumas das magníficas paisagens que iam surgindo.



2007 começa assim para mim com o domínio de um dos meus maiores medos. Agora só me apetece recuperar o tempo perdido e voltar a viajar por esse mundo fora.

Não posso terminar sem agradecer ao meu fantástico companheiro, Zintori, que foi o grande suporte e incentivador desta minha "aventura" e aos outros amigos que sabendo do meu "problema" tentaram fazer-me sentir confortável e me apoiaram nesta minha pequena odisseia.

Finalmente, espero que todos tenham tido umas excelentes entradas e que 2007 lhes traga muita prosperidade, saúde e paz!

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