31 janeiro 2005

A Sina do Elizeu



"O que ocultamos, � o que importa, � o que somos"
--(L�cio Cardoso, Di�rio Completo,1949-62)


"Elizeu tinha um comportamento francamente heterossexual. Costumava andar com mulheres, e as amava, sempre que oportunidades aparecessem. N�o era normal este costume, na �poca, em sua cidade, mas ningu�m jamais atinou em recrimin�-lo por tais pr�ticas.
Possuia um p�nis normal, e, segundo entrevistas colhidas junto �s suas amantes, ele alcan�ava o orgasmo quatro ou cinco minutos ap�s deitar sobre elas, no intercurso sexual.
Em geral, fumava cigarros de filtro, com gestos estudados, meticulosos, como um homem faz. E pronunciava, ao meio do discurso, incont�veis palavr�es, o que dava � sua conversa, um car�ter m�sculo, viril.
Dizem que, no come�o, chamou a aten��o, no clube, no bar, e na quadra de t�nis. Apesar de o mundo estar em paz, totalmente, e da explos�o demogr�fica ter sido controlada h� muito tempo, todos se acostumaram com o Elizeu, e ningu�m mais o recriminava por esse ostensivo comportamento machista.
Havia associa��es entre o comportamento viril e a sociedade opressora, do passado, que levou o mundo � Terceira Guerra Mundial. Mas, ningu�m supunha - ou mesmo poderia atribuir ao Elizeu, aspira��es, ou que belicistas fossem suas pretens�es comportamentais.
Apenas certas m�es amedrontavam-se com ele, e o evitavam, al�m de repreender veementemente suas filhas, caso ouvissem falar que alguma delas simpatizara, mesmo em sonho, com o rapaz.
No mais, em meio � turma da escola, composta por homossexuais, passivos e ativos, Elizeu nunca arranjou intrigas. Costumava ser delicado com todos eles, ainda que nunca tivesse manifestado o m�nimo interesse em andar com qualquer um.
Era sabido por todos, a aten��o desmedida que os meninos de sua escola lhe dispensavam. Mas, h�bil, educado, Elizeu a todos despistava, desconversava, evitando maiores aproxima��es.
Pelo que se sabe, apenas um, de todos os rapazes da escola, conseguira algo dele: um beijo, no rosto, no dia em que todos comemoraram o seu anivers�rio. Desde esse dia, no entanto, Elizeu se descontrolava, visivelmente, quando Jo�o Beliz�rio, o felizardo do beijo, se aproximava ou estava por perto.
Um rapaz bem estranho, o Elizeu, mas muito benquisto.
Amea�a � paz e � prosperidade, para uns - esp�cime arqueol�gica, de um passado belicoso e esquecido da humanidade, para outros."

-Falo, Paulo Augusto, Brasil, 1976

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